O LAR DE LUTERO

Frades e freiras podiam se casar? Lutero não via razão alguma que o impedisse. Como vimos, ele cria que o lar era um lugar melhor para o treinamento na vida cristã do que o mosteiro e, ele sentia que a igreja romana estava errada em não permitir que padres, monges e freiras se casassem.

Lutero viu que muitos, erradamente, consideravam o celibato (estado da pessoa que permanece solteira) como outra "boa obra" com a qual tentavam agradar a Deus. Alguns eclesiásticos quebravam seus votos – e o sexto mandamento – vivendo com mulheres com as quais não eram casados. Ademais, o matrimônio não tinha sido instituído e abençoado pelo próprio Deus? Os ataques verbais e escritos de Lutero sobre esta norma da igreja foram tão fortes que muitos monges e freiras deixaram seus mosteiros e se casaram.

O próprio Lutero não tinha qualquer intenção de casar. "Nunca farão com que eu me case", disse ele em Wittenberg em 1521. Seu motivo era muito simples: na situação de herege e proscrito, sua vida estava em constante perigo.

Mas algumas coisas fizeram-no mudar de idéia. Em abril de 1523, um grupo de freiras escapou de um claustro com a ajuda de Lutero. Nove delas não tinham lugar algum para onde ir, de modo que foram trazidas para Wittenberg. Lutero sentiu ser seu dever encontrar lares, maridos ou empregos para elas.

Dois anos depois, apenas Catarina von Bora permanecia solteira. Catarina era uma moça sensível e aplicada. Em 1525, estava com 26 anos e, para os padrões da época, já quase passando da idade de casar. Duas tentativas de encontrar marido para ela tinham falhado. "Não me casarei com ninguém a não ser com o Dr. Amsdorf ou com o próprio Dr. Lutero", dizia Katy. Lutero ria quando ouvia isto.

Contudo, à medida que pensava no assunto, encontrava boas razões para casar-se com Katy. Se fizesse isso, fortaleceria o seu ensino de que o casamento é agradável a Deus, mesmo o casamento dos padres. Isso certamente agradaria seu pai, que desejava um neto para perpetuar o nome Lutero. E ajudaria a ele próprio também, pois precisava de alguém que cuidasse das suas necessidades diárias.

No dia 13 de junho de 1525, Lutero casou-se co Catarina von Bora. Eles amavam-se ternamente como marido e mulher, e isso durante os 21 aos em que os conservou juntos.

Martinho e Katy Lutero fizeram seu lar bi "convento negro", dos agostinhos, que o eleitor lhes tinha dado. Katy logo mostrou que era uma boa esposa. Cuidava que o marido comesse e dormisse regularmente e tivesse sempre roupas limpas para usar. Levou avante a administração da casa com base no pequeno salário dele.

Deus abençoou este casamento com seus filhos: Hans, Elizabeth, Magdalene, Martin, Paul e Margaret. As crianças trouxeram muita alegria à enorme casa. Lutero adorava estar com eles e observá-los enquanto brincavam. Ele nunca voltava de uma viagem sem trazer para as crianças uma pequena lembrança.

Algumas vezes havia tristezas também. A primeira filha, Elizabeth, morreu antes de completar um ano de idade. A Segunda filha, Magdalene, adoeceu gravemente quando tinha 13 anos. Quando a morte se aproximou, Lutero orou: "Senhor, eu a amo muito, mas seja feita a tua vontade".

Ajoelhando-se à cabeceira da cama dela, disse-lhe: "Magdanele, minha menina, sei que você gostaria de permanecer com o seu pai aqui e você gostaria de ir encontrar-se com o seu Pai no céu". Sorrindo fracamente, ela respondeu: "Sim, pai querido como Deus quiser".

Magdalene morreu nos braços do pai. Quando foi sepultada, Lutero disse chorando: "Minha querida e pequena Lena, como você está feliz! Você ressurgirá e brilhará como as estrelas, sim, como o sol... É uma coisa esquisita – saber eu que ela está em paz e feliz, e ainda assim me sentir tão triste!"

As portas do lar de Lutero estavam sempre abertas a todos. Às vezes havia até 25 pessoas pousando lá. Lutero era incapaz de recusar-se a ajudar as pessoas em necessidade. Dava o pouco dinheiro que tinha aos estudantes pobres e aos amigos. Um a um ele se desfez dos pratos de ouro e prata que Katy tinha recebido como presente de casamento. Katy ralhava com ele: "Será que você vai mesmo botar tudo fora?" Lutero respondia: Deus é rico. Ele os dará mais".

Lutero dirigia em devoções domésticas diárias a sua família e qualquer visitante que porventura estivesse com eles. Na sua casa sempre havia música. Lutero tocava o alaúde e o pífaro e era dotado com uma bela voz.

Lutero estava freqüentemente distante de casa. Durante essas viagens, escrevia cartas para Katy e para as crianças. Certamente uma das mais belas cartas que um pai jamais escreveu ao seu filho é esta, enviada ao seu filho Hans, de quatro anos:

Graça e paz em Cristo, meu filho. Estou feliz em saber que você está estudando direitinho e fazendo suas orações fielmente. Continue assim, filho querido. Quando eu voltar para casa, levarei para você um presente bem bacana. Eu conheço um jardim, agradável e atraente, cheio de pequenas crianças que se vestem de jaquetas douradas e colhem belas maçãs debaixo das árvores, e pêras, e cerejas, e ameixas rubras e amarelas. Elas brincam e pulam, estão sempre felizes e têm belos cavalinhos com arreios de ouro e selas de prata. Aí eu perguntei ao dono do jardim quem era aquelas crianças, e ele me respondeu: "Estas são crianças que gostam de orar, adoram estudar e são boazinhas". Aí eu disse ao homem: "Prezado senhor, eu também tenho um filho cujo nome é Hans Lutero. Será que ele não podia vir também a este jardim para comer estas belas pêras e maçãs, cavalgar estes belos cavalinhos e brincar com as crianças?" E o homem me respondeu: "Ele pode, contanto que le goste de orar, de estudar muito e seja um bom menino. Phil e Justy também podem vir com ele e eles terão apitos, tambores e pífaros, e podem também dançar e atirar com pequenos arcos e flechas". Depois o homem me mostrou um bonito gramado no jardim, todo preparado para nele se dançar e onde havia apitos, pífaros e tambores e arcos de prata pendendo das árvores em redor. Mas era ainda cedo; as crianças tinham ainda terminado de comer e eu não podia esperar para vê-las dançar. Aí eu disse ao homem: "Meu caro senhor, eu preciso ir-me imediatamente e escrever ao meu querido Hans sobre todas estas coisas para que ele ore diligentemente, aprenda bem suas lições e seja bonzinho, para que ele também possa vir para este jardim. Mas ele tem também uma tia. Lena, que deve trazer consigo". E o homem respondeu: "Muito bem, vai e conta ao teu filho sobre estas coisas". Portanto, meu querido Hans, estude e ore direitinho e diga a Phil e Justy que façam suas orações e estudem também, pois assim vocês entrarão juntos no jardim. Deus abençoe vocês. E dê à tia Lena um beijo por mim e diga-lhe que eu a amo.

Teu querido pai,            
Martinho Lutero.

Fonte: www.ielb.org.br