O RETIRO EM WARTBURGO

No dia 26 de maio de 1521, o Imperador Carlos V assinou o Edito de Worms. Este documento fazia de Lutero um fora-da-lei, um proscrito. Ninguém devia ter qualquer negócio com ele. Todo cidadão estava o dever de capturá-lo e entregá-lo às autoridades. Ele podia ser morto se avistado.

Um mês antes desse edito ser promulgado, Lutero tinha deixado Worms a fim de retornar a Wittenberg. Mas ele não chegou lá. Frederico cuidou para que isso não acontecesse. Frederico temia que o imperador pudesse declarar Lutero um proscrito. Sabendo que a vida de Lutero correria grande perigo, o Eleitor fez planos para mantê-lo em segurança. Estes planos requeriam que "Lutero "desaparecesse" até que as coisas se acalmassem novamente na Alemanha.

Em sua jornada de volta a Wittenberg, Lutero e seus amigos pararam em algumas pequenas cidades ao longo do caminho, onde Lutero pregava a grandes ajuntamentos. Já que a estrada passava próxima a Moehra, Lutero resolveu fazer uma visita à sua avó e ao seu tio Heinz.

No dia quatro de maio, depois de passar uma noite com os seus parentes, Lutero e seus amigos estavam novamente na carruagem, sacolejando ao longo de uma esburacada estrada florestal. Ao atingirem um trecho em que o arvoredo era muito espesso, ouviram um tropel de cavalos. Subitamente, a floresta despejou diante deles um grupo de homens armados, cercando a carruagem. Um dos amigos de Lutero saltou do seu assento e correu para salvar a vida. O cocheiro foi arremessado para debaixo do vagão com um soco desferido por um dos cavaleiros.

"Qual de vocês é o Lutero?" rosnou um dos sujeitos. Quando Lutero disse ser ele, os homens o impeliram para dentro da floresta, deixando os demais irem embora.

Uma vez fora de vista, eles deram a Lutero algumas roupas de cavaleiro e trouxeram-lhe um cavalo. Então partiram – Lutero com eles – entrando por trilhas de desvio e veredas escondidas, de modo a encontrarem o mínimo possível de gente ao longo do caminho. Pouco depois da meia-noite, chegaram a Wartburgo. Este castelo praticamente deserto ao sul de Eisenach haveria de ser o esconderijo de Lutero.

O segredo do desaparecimento de Lutero foi muito bem guardado. Nem mesmo Frederico sabia exatamente para onde seus homens tinham levado Lutero. Quando a notícia se espalhou através da Alemanha, seus amigos temeram – e seus inimigos esperaram – que ele nunca mais retornasse.

Para certificar-se de que ninguém o reconheceria, Lutero deixou crescer a barba e o cabelo, aprendeu maneiras cavaleirescas e assumiu o nome de "Cavaleiro George".

Quando seus guardas julgavam seguro, permitiam que ele passeasse pela região campestre ao redor de Wartburgo. Talvez Lutero viu novamente algumas cenas que o faziam lembrar-se dos seus dias escolares em Eisenach, 20 anos antes.

Da janela do seu quarto, do alto da torre, Lutero podia ver na distância as colinas da Turíngia. Na "terra dos passarinhos", como ele a chamava, encontrou paz e quietude.

Não obstante, Lutero não se sentia verdadeiramente feliz aqui. Ele desejava estar de volta a Wittenberg para pregar, ensinar e testemunhar de Cristo. O reformador também adoeceu por um bom tempo depois de sua entrada em Wartburgo. Mas o pior dos seus problemas, aquilo que realmente o acabrunhava, eram as suas dúvidas. Agora que tinha muito tempo para estar sozinho, começou a perguntar-se: "Lutero, será possível que você é o único sábio? Será possível que todos os líderes da igreja tenham estado errados durante centenas de anos? E se vocês estiver errado? Então você estará guiado muita gente em direção ao inferno!"

Lutero sabia que isso era Satanás tentando-o para que parasse o seu trabalho de levar os homens ao conhecimento de Cristo. Somente através de muita oração foi ele capaz de rechaçar os ataques do maligno.

Trabalho foi a melhor resposta de Lutero às suas preocupações: escreveu livros, panfletos e cartas que eram levados a uma impressora; as cópias logo começaram a ser espalhadas por toda a Alemanha. O povo lia tudo com alegria, pois isso significava que Lutero ainda estava vivo e escrevia para eles.

Lutero deu início então ao seu hercúleo trabalho de traduzir o Novo Testamento do grego para o alemão. A língua alemã era diferente em várias partes do país. Assim sendo, Lutero empregou em sua tradução um tipo de alemão que podia ser entendido em todas as partes da Alemanha. Ele gastou apenas onze semanas para terminar esta enorme tarefa. Agora, muito mais gente poderia vir ao conhecimento de Jesus através da Bíblia, como tinha acontecido com ele próprio.

Entrementes, Lutero estava recebendo cartas de algumas pessoas em Wittenberg que sabiam do seu paradeiro. Essas cartas começaram a preocupá-lo. Na ausência de Lutero, o Dr. Carlstadt e Gabriel Zwilling tinham assumido a liderança do movimento que eclodira. Eles apoiavam as idéias de Lutero, mas estavam chegando a extremos perigosos com algumas mudanças nas igrejas de Wittenberg.

Estátuas e imagens estavam sendo retiradas b e queimadas. Aos sacerdotes, monges e freiras era dito que deviam se casar. Ao invés do latim, passou-se subitamente a usar o alemão no serviço religioso. O povo era forçado a receber tanto o pão como o vinho na santa ceia. Altares, velas, crucifixos e até mesmo a música na igreja estavam sendo eliminados.

Para aumentar ainda mais a confusão, três homens de Zwickau vieram a Wittenberg dizendo que eram profetas do Senhor. "A Bíblia não é importante", diziam eles, "de vez que Deus fala a nos diretamente". Os "profetas" de Zwickau pregavam contra o batismo de crianças, uma vez que apenas os adultos poderiam entender o real significado dessa cerimônia.

Filipe Melanchthon, amigo de Lutero, ficou tão perturbado com tudo isso que estava pronto para deixar a Universidade. Frederico, o Sábio, também estava preocupado. O populacho estava cometendo desordens em Wittenberg, e ele temia que isso se espalhasse para as demais cidades da Alemanha.

Finalmente a Câmara Municipal de Wittenberg, contra a vontade de Frederico, enviou uma carta a Lutero pedindo-lhe que voltasse. Lutero imediatamente aceitou e deixou seu retiro em Wartburgo. Em março de 1522 ele chegou a Wittenberg e começou a restabelecer a ordem.

De volta ao seu próprio púlpito, Lutero pregou uma série de contundentes sermões ao seu povo, urgindo com os moradores da cidade que fossem pacientes e deixassem a palavra de Deus operar nos corações dos homens. "Quando tivermos conquistado os corações dos homens." Quando tivermos conquistado os corações dos homens, os males morrerão por si mesmos. Nunca devemos usar a força. A vida inteira do cristão deve ser de fé e amor" disse ele aos seus ouvintes.

Em pouco tempo, a ordem foi restabelecida em Wittenberg. Lutero tinha voltado para ficar. Muitos problemas restavam para serem resolvidos e muitos outros novos haveriam de aparecer. Deus tinha muito trabalho para o seu servo Lutero.

Fonte: www.ielb.org.br