EXCOMUNHÃO DE LUTERO

Lutero tinha concordado em permanecer em silêncio se os seus oponentes também fizessem o mesmo. Mas eles não cumpriram a parte deles no acordo.

O Doutor Carlstadt, de Wittenberg, era um grande amigo de Lutero. Ele escreveu uma defesa das 95 Teses de Lutero depois que elas tinham sido atacados pelo Doutor João Eck, de Ingolstadt. Fiel à sua promessa, Lutero permaneceu calado enquanto Eck e Carlstadt trocavam cartas. Eck, contudo, nas suas réplicas a Carlstadt, continuava atacando Lutero. Finalmente o Duqye George, governante de outra metade da Saxônia, convidou Eck e Carlstadt para um debate frente a frente em Leipzig. Lutero foi junto na esperança de que pudesse Ter uma chance de tomar parte no debate e defender-se contra as acusações de Eck. Em junho de 1519 Lutero cavalgou as 40 milhas (cerca de 60 quilômetros) até Leipzig, junto com vários outros professores de Wittenberg. Duzentos estudantes com espadas e achas-d’armas (alabardas) foram junto para protegê-los.

O debate foi realizado no castelo do Duque George. Segundo as regras, um dos contendores devia levantar-se e falar durante meia hora. Em seguida, seria a vez do outro. Quatro secretários anotavam tudo o que era dito. Essas notas seriam enviadas a várias universidades para avaliação.

Durante a primeira semana, Eck disputou com Carlstadt. Confiado em sua memória extraordinária, Eck, não fazia uso de notas nem de livros. Carlstadt, pelo contrário, consultava numa pilha de livros à medida que falava. Isso era cansativo para a audiência, mas os argumentos de Carlstadt pareceram mais consistentes quando os registros foram mais tarde lidos e julgados. Notando isso, Eck solicitou que as regras do debate fossem alteradas, de modo que nenhum livro pudesse ser consultado durante a discussão. A audiência apoiou a idéia. Daí para frente, Carlstadt começou a perder terreno no debate.

Lutero assumiu lugar de Carlstadt em 4 de julho de 1519. O ponto principal da discussão entre Lutero e Eck era: "Como e quando o papa tornou-se o cabeça da igreja cristã?" Eck insistia em que Cristo mesmo fez de Pedro o primeiro papa. Lutero, até historicamente mostrava que depois de Cristo passaram-se centenas de aos sem que houvesse papa algum. Pedia a Eck, acima de tudo, argumentos da Escritura. Eck fazia referência aos escritos dos pais da igreja primitiva e às leis e decretos dos concílios. Lutero disse: "Com todo o respeito devido aos pais, prefiro ater-me às Sagradas Escrituras".

Ao ver que Lutero estava levando a melhor no debate, Eck comparou-o a João Huss. Huss tinha sido queimado como herege em 1415, mas seus seguidores mantinham vivas suas idéias. O povo desta parte da Saxônia odiava os hussitas porque estes tinham freqüentemente invadido terras saxônicas e destruído muitas propriedades. Quando Lutero replicou que algumas das idéias de Huss eram corretas, muitos da audiência ficaram contra ele. O Duque George tornou-se, desde então, seu inimigo mais implacável.

Depois de mais algum debate sobre a penitência, indulgências e purgatório, a discussão chegou ao fim. Os partidários de Eck achavam que ele tinha ganho o debate e, depois disso, o papa passou a considerá-lo como um paladino na luta contras as falsas doutrinas. Os amigos de Lutero, por seu turno, estavam igualmente orgulhosos do seu campeão, afinal, ele não tinha arrefecido diante do grande João Eck.

Esse debate levou Lutero a compreender o quanto ele tinha se afastado dos ensinos de Roma. Para ele, a Bíblia era infinitamente mais importante do que todos os escritos dos pais eclesiásticos, decretos de papas ou concílios e leis canônicas. Na Escritura era Deus quem falava, não os homens. Viesse o que viesse, a consciência de Lutero estava cativa à palavra de Deus.

Se Eck e os oficiais da igreja pensavam que Lutero tinha sido batido, estavam redondamente enganados. Lutero e seus seguidores escreveram tratados ou panfletos que foram rapidamente espalhados por toda a Alemanha. O debate com Eck tinha transformado Lutero num homem famoso.

Em 1520, Lutero escreveu vários tratados importantes. Ele disse que o papa não estava acima dos governantes terrenos. Disse também que qualquer cristão, estudando cuidadosamente, poderia compreender a Escritura tão bem quanto o papa, e censurou ainda as vidas dissolutas de muitos dos líderes da igreja.

A Igreja Católica Romana ensina que há sete sacramentos. Lutero afirmou que na realidade há apenas três – batismo, ceia do Senhor e penitência – e ele não estava muito certo acerca deste último. A igreja ensinava que o único caminho para Deus era através da meditação do sacerdote. Lutero disse que todos os homens são sacerdotes e podem ir a Deus diretamente.

A igreja romana ensinava que na ceia do Senhor o pão e o vinho são transformados pelo sacerdote, pois "sacrifica" o corpo e o sangue de Cristo pelos pecados do povo. Lutero negou isso e mostrou, com base na Bíblia, que a morte de Cristo na cruz pagou por todos os pecados uma vez e para sempre, e que seu corpo não necessita ser sacrificado novamente. A Escritura também deixa claro que no sacramento do altar o pão e o vinho permanecem, mas o crente recebe com eles também o verdadeiro corpo e sangue de Jesus. Lutero argumentava que ao povo devia ser dado não apenas o pão, mas também o vinho, porque foi dessa maneira que Jesus ministrou a santa ceia aos seus discípulos.

Lutero mostrou como um cristão devia ser "um senhor livre, não sujeito a ninguém" e, ao mesmo tempo, "servo de todos, a todos sujeito".

Em nos dando o céu, como presente, Deus nos libertou de todos os temores. Em agradecimento a Deus por esta liberdade, o cristão não pode deixar de servir aos outros por meio de obras de amo e benevolência.

Enquanto Lutero escrevia, Eck encontrava-se a caminho de Roma. Lá chegando, fez um relatório sobre o debate de Leipzig. A cúria, ou corte da igreja, realizou então uma reunião especial. Com a ajuda de Eck e Caetano, redigiram uma lista de 41 "erros" cometidos por Lutero. Foi-lhe enviada então uma "bula", ou carta papal, exigindo que se retratasse dos seus "falsos ensino" dentro de 60 dias, caso contrário, seria excomungado.

Se o papa pensava que essa bula amedrontaria Lutero e o reduziria ao silêncio, estava enganado. Muita gente esta alegre por Lutero ter tido a coragem de pôr a descoberto as coisas que estavam erradas no seio da igreja. Frederico, o Sábio, tinha decidido proteger Lutero. Mais importante que tudo, Lutero não podia refrear-se de proclamar ousadamente a verdade do evangelho.

Eck foi encarregado da perigosa tarefa de anunciar a bula papal na Alemanha. O povo rasgou os seus cartazes e o ameaçou, de modo que ele se deu por satisfeito em retornar vivo a Ingosltadt.

Alguns dos inimigos de Lutero queimaram seus livros em praça pública. Quando Lutero soube disso, fez ele próprio também a sua fogueira. No dia 10 de dezembro de 1520 – fim do prazo dado pelo papa para que ele se retratasse – Lutero distribuiu o anúncio de sua própria queima de livros. Fora dos muros de Wittenberg, Lutero queimou os livros de direito canônico e dos escritos dos padres.

Então, quando as chamas começaram a rugir impetuosas, Lutero sacou de uma cópia de bula papal e atirou-a ao fogo, clamando: "Assim como destruíste a verdade de Deus, possa o Senhor consumir-te nestas chamas".

O rompimento de Lutero com a igreja tinha acontecido finalmente.

Fonte: www.ielb.org.br