IGREJA TENTA SILENCIAR LUTERO

Muita gente estava alegre que Lutero tivesse atacado o comércio das indulgências. Algumas pessoas, no entanto, o odiavam por causa disso. Alguns dos amigos dominicanos de Tetzel começaram a espalhar mentiras sobre Lutero. O imperador Maximiliano I, ouvindo essas mentiras, acreditou nelas e escreveu ao papa instando com ele para que fizesse alguma coisa com respeito a Lutero.

Mentiras, porém, não eram necessárias para que a igreja tomasse medidas contra Lutero. Este "mongezinho ordinário" tinha tido a ousadia de atacar as indulgências, um dos negócios mais lucrativos da igreja. Além disso, as indulgências tinham sido aprovadas pelo papa, de modo que Lutero, na realidade, estava atacando o papa.

Para piorar as coisas, Lutero tinha pregado um vigoroso sermão sobre a excomunhão. Nesse sermão, tinha afirmado que uma pessoa excomungada iria para o céu caso conservasse a fé no coração. Se o povo acreditasse nisso, a igreja perderia a sua mais potente arma contra ele. A essa altura, o papa começou a tomar providências contra Lutero.

Primeiro, Lutero foi convocado a apresentar-se em Roma, a fim de ser "examinado". Em seguida, o papa modificou esta ordem e disse ao Cardeal Caetano que prendesse Lutero. "Quando você tiver nas mãos, mantenha-o sob guarda segura até receber de nossa parte instruções adicionais", escreveu o papa. Posteriormente, o papa deu instruções no sentido de que, se Lutero se arrependesse de seus ataques, fosse liberado; caso contrário, a igreja devia puni-lo com a excomunhão.

Uma outra ordem do papa foi dada a Gabriel della Volta, geral dos agostinianos. O papa lhe disse que "aquietasse aquele homem, o Lutero", antes que ele espalhasse suas idéias aos quatro ventos.

Era grande o perigo em que Lutero se encontrava. Os dominicanos, seu próprio geral agostiniano, um cardeal, o papa e o santo imperador romano estavam todos contra ele.

Mas Deus providenciou para que Lutero tivesse um protetor poderoso – o Eleitor Frederico, o Sábio, da Saxônia. Frederico tinha em alta estima o seu professor de religião. Muitos dos seus oficiais, incluindo o pregador da corte, George Spalatin, estavam do lado de Lutero e falaram favoravelmente acerca dele a Frederico. O Eleitor estava decidido a fazer com que Lutero tivesse um julgamento justo, o que não aconteceria se seus inimigos conseguissem pôr as mãos nele. Assim sendo, Frederico, engenhosamente, tornou ineficazes todas as suas tentativas de retirar Lutero de sob sua proteção.

Por essa época, Frederico podia desobedecer tanto ao papa como ao imperador, porque os turcos estavam penetrando na Europa, e o papa precisaria da ajuda de todos os príncipes cristãos para combatê-los. Portanto, o papa não podia dar-se ao luxo de ter desentendimento com um homem como Frederico. Outrossim, o Imperador Maximiliano estava velho e enfraquecido. Quando ele morresse, Frederico seria um dos sete príncipes a eleger um novo imperador. Seu voto seria importante para eleger o homem que o papa quisesse como novo monarca.

Desse modo, quando Frederico pediu que Lutero tivesse permissão para defender-se diante de um juiz justo na Alemanha, o papa concordou. O Cardeal Caetano prometeu ver Lutero em Augsburgo e tratar com ele de "maneira paternal".

Novamente Lutero estava enfrentando grande perigo. Em sua viagem a Augsburgo, ele próprio duvidava de que pudesse escapar com vida. Pensava na desgraça que traria sobre seus pais, caso fosse queimado em praça pública. Mas a vontade de Deus precisava ser feita, e Lutero racionou: "Mesmo em Augsburgo, sim, no meio dos seus inimigos, Jesus Cristo reina".

Em outubro de 1518, Lutero teve três encontros com o Cardeal Caetano. O cardeal tinha ordens expressas de Roma para não entrar em debate público com Lutero. Lutero seria simplesmente solicitado a retratar-se, ou seja, desdizer o que havia declarado oralmente ou por escrito. Se fizesse isso, seria perdoado e voltaria a ser novamente um "verdadeiro filho da igreja". Caso contrário, outras medidas seriam tomadas.

Lutero adotou uma posição muito humilde diante de Caetano e o cardeal, a princípio, foi muito afável para com ele. Mesmo assim, não puderam chegar a um acordo. Lutero não se retrataria, a menos que alguém lhe mostrasse, pela Escritura, que ele estava errado. Caetano não podia fazer isso. Por fim, o cardeal zangou-se e ordenou que Lutero se retirasse e só se apresentasse novamente quando estivesse pronto para se retratar.

Os amigos de Lutero retiraram-no rapidamente de Augsburgo tão logo ouviram que Caetano estava se preparando para prendê-lo. Na viagem de volta a Wittenberg, Lutero viu a cópia de um anúncio feito pelo papa, no qual era chamado de herege (alguém que acredita ou ensina doutrina falsa). O papa o tinha declarado culpado sem nem mesmo ouvir as suas razões! Agora Lutero sabia que não poderia esperar de Roma qualquer tratamento realmente honesto.

Caetano escreveu a Frederico chamando Lutero de herege e pedindo que ele fosse mandado a Roma ou forçado a abandonar a Saxônia. Lutero defendeu-se das acusações de Caetano e disse que apelaria para um concílio geral da igreja.

Frederico estava realmente numa enrascada, mas ele sabia o quanto o papa e o imperador precisavam dele naquele tempo. Voltou-se para os seus professores universitários à procura de conselho. Praticamente todos eles estavam do lado de Lutero. Frederico queria cumprir o seu dever cristão. Se Lutero estivesse certo, ele cometeria um pecado contra Deus por entregá-lo aos seus inimigos. Se estivesse errado, então certamente haveria homens bastante instruídos na igreja para demonstrar os erros dele. Mas isso só poderia ser feito se fosse dada a Lutero uma boa chance de explicar suas idéias.

O papa sabia que se quisesse pôr as mãos em Lutero teria de ganhar o apoio de Frederico. Seu passo seguinte foi enviar um representante especial para vê-lo. Esse homem, Charles von Miltitz, foi bem escolhido. Ele era da Soxônia e parente de Frederico. Assim podia persuadir o Eleitor a fazer aquilo que ordens ameaçadoras não tinham conseguido.

Miltitz trouxe vários favores do papa. Um destes era a "Rosa Dourada", uma rosa que o papa abençoava e dava cada ano ao governante cristão que tivesse se destacado em seus serviços. À igreja.

Enquanto atravessava a Alemanha, Miltitz ia descobrindo que muita gente estava do lado de Lutero. Frederico não entregaria Lutero mesmo que iso lhe custasse os presentes do papa. Assim sendo, Miltitz assumiu ares de cordialidade, pondo em Tetzel a maior parte da culpa pelas dificuldades existentes.

Após conversar com Lutero, Miltitz prometeu que daria dele um relatório favorável ao papa.

Lutero disse que pararia de pregar contra as indulgências se os seus inimigos parassem de atacá-lo. Lutero também concordou em permitir que um bispo alemão examinasse seus ensinos e apontasse neles quaisquer erros. Os dois homens se despediram em paz.

Jogaram sobre Tetzel a culpa de todos os problemas. Miltitz estava irado com ele e seus amigos dominicanos esqueceram o vendedor de indulgências. Quando Lutero ouviu que Tetzel estava sozinho e sem amigos, escreveu-lhes dizendo: "Não leve a coisa tão a sério. Você não começou este problema. A criança tem outro pai". Tetzel morreu em ignomínia em julho de 1519.

Em seu relatório ao papa, Miltitz deu a impressão de que Lutero tinha se retratado de tudo quando dissera. O papa imediatamente perdoou Lutero e lhe deu as boas-vindas de reingresso na igreja. Ele estava ansioso para acabar de vez com as dificuldades na Alemanha, porque outros problemas lhe ocupavam agora a mente.

Inesperadamente, porém, morreu o Imperador Maximiliano. As questões eclesiásticas foram esquecidas por um pouco, enquanto um novo imperador tinha de ser escolhido. Deus estava dando a Lutero um pouco mais de tempo.

Fonte: www.ielb.org.br