INDULGÊNCIAS À VENDA

A igreja no templo de Lutero ensinava que havia dois tipos de punição para o pecado: a punição eterna e a temporal. A punição eterna era o inferno. Para escapar do inferno, o pecador tinha de se arrepender dos seus pecados de todo o coração. A punição temporal se dividia em duas partes: a "satisfação" que era feita nesta vida, e a "purificação" no purgatório.

A satisfação terrena era estabelecida ou prescrita pela igreja. Quando uma pessoa confessava um pecado, o sacerdote lhe dizia o que devia fazer como compensação por ele. Isso podia incluir a privação de certos alimentos, dar dinheiro para algum projeto da igreja ou dizer certas orações muitas vezes.

Estas boas obras cobriam parte, mas não todos os pecados que uma pessoa tivesse cometido. Assim, uma purificação adicional era necessária no purgatório. Essa purificação adicional, assim se pensava, era de dolorosa, muito demorada.

Mas a igreja oferecia ao povo uma maneira de escapar também a esse sofrimento. O pecador poderia recorrer ao "tesouro de méritos" para dele "sacar" merecimentos. De acordo com esse ensino, Jesus e alguns santos tinham feito muito mais boas obras do que era necessário para eles mesmos. Suas obras extras eram creditadas numa espécie de conta corrente no céu, chamada de "tesouro". A igreja poderia transferir alguns desses méritos ao pecador através da concessão de indulgências. Se fossem arrecadadas indulgências o suficiente, as almas dos vivos e dos mortos poderiam ser libertadas do purgatório.

A igreja não dizia que as indulgências davam o perdão dos pecados. Uma pessoa que comprasse ou ganhasse uma indulgência ainda tinha de confessar seus pecados a um sacerdote e receber o perdão. Para muita gente, porém, ficar livre do castigo pelos pecados era a mesma coisa que receber perdão deles.

Agentes especiais vendiam cartas de indulgência por todas a Europa. As cartas continham a assinatura e o selo do papa. Um desses vendedores de indulgência era um monge chamado João Tetzel. Para entendermos bem o que ele estava fazendo, devemos dar uma olhada em alguns acontecimentos anteriores.

Em 1513 faleceu o arcebispo da cidade de Mainz. Alberto de Brandenburgo desejava sucedê-lo no cargo. Se isso acontecesse, ele se tornaria o principal dignitário da igreja em toda a Alemanha.

Mas Alberto tinha apenas 23 anos, portanto, jovem demais para ser arcebispo. Ele precisava de uma permissão especial do papa, e isso custaria dinheiro. Havia muitos outros que também estavam de olho no cargo de arcebispo, de modo que Alberto teria de pagar mais do que todos eles. Quando ofereceu o pagamento de 550.000 dólares, 250 a mais do que o pagamento regular, o papa Leão X disse: "Alberto é o único homem indicado para o cargo".

A soma era vultuosa e Alberto teve de pedir dinheiro emprestado aos banqueiros. A fim de que ele pudesse liquidar seu débito, o papa emitiu indulgências para serem vendidas na Alemanha. Metade do dinheiro seria destinado à construção da Basílica de São Pedro, em Roma. A outra metade iria para Alberto, a fim de que ele liquidasse seu débito com os banqueiros.

Alberto, pessoalmente não vendia indulgências, mas contratou alguns vendedores. João Tetzel foi o escolhido para operar nas vizinhanças de Wittenberg.

Como vendedor, não havia alguém que se igualasse a Tetzel. A semelhança dos circos modernos, sua chegada a uma cidade era anunciada com semanas de antecedências. Antes de chegar lá, enviava homens com a tarefa de descobrir quanto dinheiro cada pessoa na cidade ganhava ou tinha. Os ricos deviam pagar mais por suas indulgências do que os pobres.

à sua chegada, Tetzel era recebido por grandes multidões. Ele dava início À cerimônia com um sermão sobre o "inferno", no qual descrevia de maneira vívida a agonia dos condenados. Vinha em seguida, seu sermão sobre o "Purgatório". Neste, descrevia parentes e entes queridos chamando por libertação de seus sofrimentos. Seu último sermão, sobre o "Céu", discorria sobre a paz e a felicidade do paraíso. Depois de ouvir esses sermões, todo mundo estava pronto para comprar as indulgências.

Quando Lutero ouviu falar dessas coisas, ficou muito chocado. Ele já tinha pregado antes contra indulgências, advertindo que elas não podiam tomar o lugar do arrependimento e da contrição pelo pecado. Agora, até alguns daqueles de quem Lutero cuidava espiritualmente, estavam freqüentando as reuniões de Tetzel. Quando vinham para a confissão, não mostravam qualquer arrependimento. Em vez disso, mostravam suas indulgências a Lutero e diziam que o problema dos seus pecados já estava resolvido. Martinho se recusava a lhes dar a absolvição ou a santa ceia, até que se mostrassem arrependidos.

A essa altura, Lutero pregava sermões ainda mais enérgicos contra as indulgências. Fazendo isso, arriscava-se a incorrer no desagrado e ira de Frederico, o Sábio, um importante príncipe de uma parte da Alemanha, chamada Saxônia.

A igreja de Frederico, o Sábio, conhecida como a "Igreja do Castelo", lá em Wittenberg, tinha uma enorme coleção de relíquias que Frederico tinha juntado cuidadosamente durante muitos anos. No dia 01 de novembro, dia de Todos os Santos, qualquer um que visitasse essas relíquias e fizesse uma doação para a igreja, recebia uma indulgência que encurtava em 2 milhões de anos a sua estada no purgatório. O dinheiro destinava-se à manutenção da igreja e a universidade em Wittenberg. Lutero gostava da sua posição na universidade, além de amar e respeitar seu príncipe; mas, acima de tudo, estava preocupado com a saúde espiritual do povo de Deus.

A despeito dos sermões de Lutero, os membros de sua congregação continuaram comprando indulgências. Lutero não podia simplesmente ficar de braços cruzados vendo isso acontecer. Além do mais, o dia de Todos os Santos estava se aproximando, e grandes multidões certamente iriam à procura de indulgências na Igreja do Castelo. Chegara a hora de Frei Martinho dar um passo mais decisivo.

Fonte: www.ielb.org.br