SANTA ROMA, EU TE SAÚDO

Martinho Lutero não pôde ficar longe da escola por muito tempo. Logo depois de se tornar sacerdote, começou novamente a assistir aulas na Universidade de Erfurt. Desta vez, começou a estudar Religião e não Direito. Ele desejava poder ensinar a Bíblia a outras pessoas.

Em 1508, depois de ter estudado um ano, Lutero recebeu a visita de João Staupitz. O Dr. Staupitz era o dirigente máximo de todos os monges agostinianos na Alemanha. Ele queria que Lutero ensinasse Filosofia na nova Universidade de Wittenberg.

Lutero não apenas ensinava em Wittenberg, mas também assistia aulas lá. Na primavera de 1509, recebeu permissão para dar aulas sobre a Bíblia. À medida que ele ensinava com base na Bíblia, aprofundava-se cava dez mais nela. Desta maneira, Deus estava preparando o seu servo para a grande obra que estava por vir.

Mas o servo até agora não conhecia realmente o seu Mestre. O próprio Lutero declarou mais tarde: "Eu não acreditava em Cristo a não ser como um Juiz rigoroso e terrível. Por isso é que me voltei para Maria, para os santos e para minhas próprias boas obras. Mas tudo isso era falsa religião e idolatria, porque eu não conhecia Cristo e minhas obras não eram fruto da minha fé nele".

Em vez de orar a Cristo, Lutero orava a 21 santos – a três deles cada dia da semana. Tentou todo tipo de coisa para agradar a Deus – flagelar-se a si mesmo, passar longos períodos sem comida, orar durante a noite inteira, fechar-se em sua cela, orar durante a noite inteira, fechar-se em suas celas durante vários dias. Mesmo assim, não sentia que estava fazendo o bastante para ganhar o amor de Deus.

Certo dia, quando Martinho estava muito desanimado, um companheiro seu, sacerdote como ele, tentou encorajá-lo. Relembrou-lhe o Credo Apostólico, especialmente as palavras "Creio no perdão dos pecados". O sacerdote perguntou-lhe: "O Deus que deu o seu único Filho não é porventura o Deus do amor e da misericórdia? A morte de Jesus não pagou, porventura, todos os nossos pecados?". Essas palavras trouxeram a Lutero algum lenitivo e ele nunca se esqueceu delas.

Staupitz, também, tentou encorajar Lutero. Quando Martinho lhe disse que seus pecados eram grandes demais, Staupitz respondeu: "Cristo é o perdão de todos os pecados. Ele é um salvador real. Deus enviou o seu próprio Filho e o entregou por todos nós". Lutero disse mais tarde que se não fosse Staupitz ao seu lado, ele teria se entregado ao desespero.

No outono de 1510, uma grata notícia chegou aos ouvidos de Lutero. Ele tinha sido designado para fazer uma viagem a Roma. Tinha surgido uma desavença entre os agostinianos acerca de um novo conjunto de regras que os monges deviam obedecer. Lutero e um outro monge deviam solicitar a seus líderes em Roma que resolvessem a questão.

Imagine a emoção de Lutero enquanto pensava na viagem. Roma era então, como ainda hoje, o centro da atenção e da autoridade para os católicos romanos. O próprio papa vivia lá. Com exceção da Palestina, Roma tinha mais lugares santos e mais relíquias preciosas do que qualquer outro lugar da terra. Não oferecia ela exatamente o remédio para a doença espiritual de Lutero?

Os dois monges fizeram os aproximadamente 1.368 quilômetros para o sul, em direção a Roma, em cerca de sete semanas. Eles comeram e dormiram em muitos mosteiros ao longo do caminho. Após a travessia dos Alpes, eles desceram pelo norte da Itália. Então, num dia de janeiro de 1511 avistaram, à distância, a grande cidade. Lutero caiu ao chão e exclamou: "Roma santa, eu te saúdo!"

Outrora a principal cidade do mundo, Roma tinha apenas cerca de 40.000 habitantes por essa época. Por toda parte havia ruínas das antigas construções romanas. Mas Lutero não cuidava ver esses sinais da passada glória de Roma. Ele queria visitar tantas igrejas e lugares sagrados e ver tantas relíquias quanto possível. O negócio que o trouxera até ali tomaria apenas uma parcela do seu tempo. O resto haveria de gastar como peregrino na cidade santa.

Em Roma havia muita coisa para um cristão ver: a escada que Jesus subiu quando de seu julgamento perante Pilatos, sete espinhos da coroa de Jesus, um pedaço da cruz e um dos pregos com que ele foi cravado, ramos da sarça ardente de Moisés, uma das 30 moedas de prata que Judas recebeu como pagamento pela venda do seu Mestre, a mesa em que foi celebrada a última ceia, pedaços dos pães que alimentaram os 5000 e muitas outras relíquias. Lutero acreditava que tudo aquilo era genuíno. Ele achava que tocar e beijar essas relíquias ou orar diante delas era uma boa obra. Tais obras – assim lhe tinham ensinado – poderiam reduzir em muito a permanência de alguém no purgatório.

De fato, Lutero partilhava da crença comum de que se uma pessoa fizesse para si mesma mais boas obras do que o necessário, ela poderia "emprestar" uma parte delas a pessoas que já estavam no purgatório. Falando sobre essa viagem a Roma, ele disse mais tarde: "Eu me sentia consternado por meus pais ainda estarem vivos, pois eu bem que gostaria de tirá-los do purgatório através das missas e das boas obras".

Lutero ficou chocado com muita coisa que viu e ouviu em Roma. Muitos dos sacerdotes italianos tinham uma educação precária e faziam pouco caso das coisas sagradas. Alguns dos mais proeminentes líderes da igreja viviam dissolutamente.

Posteriormente, Martinho falou das dúvidas que começaram a penetrar na sua mente: "Enquanto estava em Roma, desejei ardentemente libertar meu avô do purgatório. Subi a escada de Pilatos, por onde Jesus tinha sido conduzido. Prostrado, eu rezei a cada degrau, beijando-o longamente. Mas quando cheguei ao topo, pensei: Quem pode saber se tudo isso é realmente verdade?"

Lutero ainda acreditava que o único caminho para o céu era através da igreja. Mas ele ficava a imaginar se a igreja estava sendo fiel a Deus e à palavra de Deus. Muito confuso em seus pensamentos, Lutero retornou à Alemanha. Essa visita a Roma ele nunca mais esqueceria.

Fonte: www.ielb.org.br