LUTERO MONGE AGOSTINIANO

Quando Martinho Lutero entrou para o mosteiro, tudo fazia crer que tinha dado um grande passo para trás. Com isso, ele enfureceu seu pai, deixou chocados seus professores, entristeceu seus amigos e, aparentemente, deitou a perder sua educação refinada. Por que um jovem e promissor estudante de Direito haveria de mudar tão repentinamente?

Em primeiro lugar, a mudança não era tão repentina como pensavam os amigos de Martinho. Exteriormente, ele tinha aparentado contentamento e felicidade. Mas interiormente, Martinho era dominado pelo sentimento de pecado e culpa. Ele temia o inferno e o purgatório e anelava obter a salvação. Mas sentia ser impossível obtê-la si mesmo.

A igreja tinha muitos auxílios para oferecer: sacramentos, peregrinações e orações aos santos. Mas a maioria das pessoas acreditava que os santos não prestariam qualquer granjear o favor. A maneira mais segura de alguém ter certeza do seu auxílio era tornar-se monge. Um monge poderia despender todo o seu tempo em meditação religiosa, oração e boas obras. Martinho haveria de oferecer-se a si mesmo ao Senhor, assim como Ana havia feito com relação a seu filho Samuel.

Algumas coisas que tinham acontecido durante a vida estudantil de Lutero contribuíram para impeli-lo em direção ao mosteiro. Certa vez ele tinha visto uma pintura de um grande navio representando a igreja. O navio singrava em direção ao céu, tendo a bordo apenas sacerdotes e monges. O resto do povo estava na água e se afogava, com exceção daqueles que se agarravam aos cabos das boas obras que lhes eram atirados do navio. E Martinho pensou: "Que bendita segurança é estar no navio!"

Na cidade de Magdeburgo, tinha visto um príncipe metido em roupas de monge a esmolar pelas ruas e sentiu-se envergonhado de si mesmo por não chegar a esse ponto para salvar sua própria alma.

Sem a certeza de que seus pecados tinham sido perdoados, Martinho tinha um medo terrível da morte. Esse medo criou raízes profundas enquanto estudava em Erfurt. Certo dia ele feriu-se acidentalmente na perna, com sua espada. O sangue jorrou abundante e a perna começou a inchar. Pensando que ia morrer, clamou: "Ó Maria, ajude-me". Um médico estancou o sangramento e a perna sarou, mas Martinho tremia toa vez que pensava em como tinha estado próximo à morte.

Noutra ocasião, um dos amigos íntimos de Martinho, em Erfurt, teve morte repentina, e ele ficou a pensar: "E se eu tivesse de morrer amanhã? Será que estaria pronto para comparecer perante o justo Juiz do universo?"

Com a mente entretida por tais pensamentos, Martinho estava retornando à escola depois de uma visita ao lar em julho de 1505. Já perto de Erfurt, sobreveio um pesado temporal, de proporções amedrontadoras. Um raio golpeou o céu com tal ímpeto e caiu tão próximo dele que fê-lo tombar ao chão. À semelhança de muitos outros, Martinho acreditava que o raio era um sinal da ira de Deus. Aterrorizado, gritou: "Senhora Sant’Ana, ajuda-me e me tornarei monge!"

Posteriormente, arrependeu-se de Ter feito tal promessa. Mas a despeito das lágrimas dos amigos e da fúria do pai, manteve a palavra. Duas semanas depois do incidente, entrou para o mosteiro.

Lutero escolheu unir-se a um grupo muito austero, a Ordem dos Agostinhos, em Erfurt. Durante os dois primeiros meses, foi cuidadosamente observado. Se mudasse de idéia, poderia ainda deixar o mosteiro. Mas seu único pensamento era manter a promessa feita a Sant’Ana.

Numa cerimônia especial, Lutero foi feito noviço, ou principiante. Ajoelhado diante do prior – monge responsável pelo mosteiro – implorou de Deus graça e misericórdia. O prior lhe fez perguntas sobre a sua vida passada e relembrou-lhe de que a vida que estava para enfrentar era penosa. Enquanto um coro de monges cantava um hino, Martinho vestiu o hábito branco e o manto preto por sobre ele. Um monge raspava o topo da cabeça, o que é conhecido como tonsura. Foi-lhe dado um pequeno solidéu preto para que o usasse todo o tempo. De agora em diante, seria chamado de Irmão Martinho.

Durante seus anos como noviço, Lutero aprendeu o estilo de vida do mosteiro. Ocupava uma pequena cela sem esquecimento, de aproximadamente 2 m 13 cm x 3 m 04 cm, tendo por mobília uma mesa, uma cadeira e uma cama de palha. Como exercício, os monges caminhavam em duplas pelo pátio. Sete vezes ao dia iam à capela para sessões de adoração.

Irmão Martinho aprendeu a passar com duas refeições por dia, ou uma apenas, se fosse dia especial de jejum. Em sua cela, passava longas horas em oração, leitura e meditação profunda. Assim passou-se o ano do noviciado, e Lutero parecia ter obtido a paz de espírito.

Ao fim desse período, Lutero fez seus últimos votos monásticos. Prometeu permanecer pobre (voto de pobreza), nunca casar (voto de castidade) e obedecer a Deus e a seus superiores no mosteiro (voto de obediência). Aí está ele, estendido horizontalmente sobre o chão, com os braços entendidos, em forma de cruz. O prior o aspergiu com água benta, e o coro entoou canções tristes pela morte do velho homem e canções tristes pela morte do velho homem e canções jubilosas pelo nascimento do povo. Martinho levantou-se. Agora era um monge dos pés à cabeça.

Logo depois disso, Lutero foi escolhido para tornar-se sacerdote. Durante 8 ou 9 meses estudou os livros que explicavam os sacramentos. Na primavera de 1507 celebrou sua primeira comunhão, ou missa.

Para esta ocasião especial, Lutero convidou seu pai, o qual não tinha lhe escrito já fazia um ano. Hans Lutero confirmou que estaria presente, ainda que estivesse muito triste com a decisão do filho. Por essa época, a situação financeira de Hans era muito boa. Ele chegou acompanhado de 20 cavaleiros e deu ao mosteiro um valor correspondente a 300 dólares para ajudar a pagar despesas.

Durante o jantar, Martinho contou a seu pai como Deus o havia chamado durante a tempestade e o guiado posteriormente para que se tornasse monge. Hans replicou, ríspido: "Queria Deus que não tenha sido mais uma artimanha do diabo! Você nunca leu que deve honrar a seu pai e sua mãe?" As regras da igreja não significavam tanto para Hans Lutero como a palavra direta de Deus. Martinho haveria de se lembrar disso mais tarde em sua vida.

Ao celebrar sua primeira missa, o jovem sacerdote tremia. Quando pronunciou as palavras: "Nós te oferecemos, ó Deus vivo, verdadeiro e eterno", ficou a imaginar como era possível que ele um pescador, ousasse falar ao santo, e grandioso Deus. O temor de tal maneira tomou conta dele que mal pôde terminar o serviço religioso.

Aqui estava o grande problema de Lutero: Deus é perfeitamente santo, e ele exige santidade de todos aqueles que chegam, À sua presença. Lutero sabia que era pecador. De que maneira então poderia ele ser salvo?

Ele conhecia as respostas da igreja. Uma delas era a confissão – revelar seus pecados ao sacerdote e ouvir dele a pronúncia do perdão. Outra era a vida monástica, fazendo boas obras para agradar a Deus. Mas estas respostas não aquietavam a alma de Lutero. Será que tinha lembrado de todos os seus pecados na confissão será que tinha feito boas obras suficientes para ganhar o favor de Deus? Tais pensamentos o afligiam muito e às vezes ele, ao invés de amor, sentia ódio desse Deus que lhe infligia tamanha miséria.

 Fonte: www.ielb.org.br