LUTERO NA UNIVERSIDADE

Quando Martinho completou 15 anos, seus pais o enviaram para Eisenach, onde passou a freqüentar a Escola da Igreja de São Jorge, a fim de preparar-se para a universidade.

Eisenach ficava cerca de 160 quilômetros a sudoeste de Mansfeld, numa parte da Alemanha chamada Turíngia. Fora dos muros da cidade, sobre um monete, havia um grande castelo de pedra, o castelo de Wartburgo. Outrora um lugar buliçoso, o castelo de Wartburgo estava agora praticamente vazio. Mal sabia Martinho, ao deitar seu olhar pela primeira vez sobre aquele lugar, que este castelo haveria de abrigá-lo um dia, num futuro muito distante.

Martinho estava feliz na escola de latim em Eisenach. Ele gostava especialmente do diretor, Mestre João Trebonius, que tratava seus alunos com amor e respeito. Certo escritor nos conta que, sempre que Mestre Trebonius entrava na classe, tirava o seu chapéu e fazia uma inclinação de cabeça para os estudantes. Quando lhe perguntaram por que fazia isso, respondeu: "Entre estes jovens discípulos sentam-se alguns a quem Deus pode fazer nossos futuros líderes e homens eminentes. Ainda que não os conheçamos agora, é perfeitamente adequado que os honremos".

Esta estória pode não ser verdadeira, mas Trebonius e os outros professores em Eisenach eram homens distintos e que contribuíram para que os três anos de Martinho ali fossem muito agradáveis.

Em Eisenach, Martinho concluiu seus estudos de latim. Não demorou muito e ele tornou-se o primeiro da sua classe em retórica, línguas e poesia. Quando o professor Trutvetter, da Universidade de Erfurt, visitou a escola, Martinho foi escolhido para proferir um discurso, de boas-vindas.

O discurso agradou de tal forma ao professor Trutvetter, que ele disse a Mestre Trebonius: "Fique de olho nesse Lutero. Esse rapaz tem futuro. Por todos os meios ao seu alcance, prepare-o para a universidade encaminhe-o a nós em Erfurt".

Voltando-se para Martinho, disse-lhe: "Meu filho, o Senhor lhe concedeu dons especiais; use-os fielmente em seu serviço. Quando você estiver pronto e quiser vir a nós em Erfurt, lembre-se de que lá tem um bom amigo, o Dr. Trutvetter. Procure-o e ele lhe dará um cordial bem-vindo".

A fim de manter-se na escola, os estudantes mais pobres esmolavam comida cantando pelas ruas. Embora seu pai estivesse agora em condições de custear suas despesas, Martinho gostava de se juntar aos outros rapazes nesta faina. Geralmente eles davam uma parada na casa de Kuns Cotta, um comerciante rico. Sua esposa, Úrsula Cotta, tinha visto Martinho orando na igreja e ela gostava da sua voz agradável. Certo dia, ela o convidou para entrar para que ele pudesse aquecer-se ao fogo enquanto comia.

Em breve Martinho conquistou os corações da família Cotta e todos ali o receberam como a um filho. E Martinho passou a dar lições ao pequeno Henry Schalbe, parente da Sra. Cotta. Ele cresceu em estreito contato com essas pessoas, vivendo com os Cotta e fazendo refeições com os Schalbe. Com tão bons amigos e professores em Eisenach, não admira que Martinho a tenha chamado de sua "bem amada cidade".

Na primavera de 1501, com 17 anos, Martinho recebeu seu diploma da escola secundária. Hans Lutero sempre desejara que seu filho se tornasse advogado. Assim sendo, Martinho foi enviado para a Universidade de Erfurt, uma das melhores da Alemanha.

Erfurt, com uma população de mais de 20.000 habitantes, era a Quinta maior cidade da Alemanha naquele tempo. Algumas vezes era chamada de "pequena Roma", por haver na cidade muitos prédios de propriedades da igreja. Era grande o entusiasmo de Martinho por estar vivendo em Erfurt. Ali poderia ver e participar de muitas celebrações religiosas.

Os 2.000 estudantes da universidade moravam juntos em grandes prédios, havendo cerca de seis a oito alunos em cada dormitório. A hora das aulas, das refeições ou do repouso era anunciada pelo toque de um sino. Os alunos se levantavam às 4 da manhã e se recolhiam às 8 da noite.

Como muitos dos seus colegas na universidade, Martinho usava roupas vistosas e portava uma espada na cinta. Ele comprou um alaúde, espécie de guitarra que tocava em reuniões de canto em seu dormitório. Também gostava de dar longos passeios pela agradável região campestre que circundava Erfurt.

Martinho estudou os escritos de romanos famosos e dos grandes pensadores gregos. Em setembro de 1502, recebia o diploma de Bacharel em Artes.

Depois de mais dois anos de estudo intenso, Martinho recebeu seu diploma de Mestre em Artes. Uma pessoa, com esse diploma, podia lecionar na universidade. Foi um dia magnífico para Martinho, e ainda mais magnífico para seu pai. Hans Lutero tinha trabalhado arduamente para dar educação ao seu filho, e seus sonhos com relação a Martinho estavam se tornando realidade.

Martinho ainda não era advogado. Para que recebesse esse título, teria que cursar ainda uma série de disciplinas na área de Direito. Para Hans, não era o custo que importava. Seu negócio estava florescente e ele pagaria alegremente todas as despesas do filho.

Na ânsia de agradar seu pai, Martinho concordou em permanecer em Erfurt. Haveria de dar algumas aulas e estudar Direito ao mesmo tempo. Comprou um volumoso livro-texto de Direito e procurou interessar-se nele. Mas seu coração não estava neste assunto. Na biblioteca, gastava a maior parte do seu tempo lendo outras coisas.

Martinho, no entanto, sentia-se ainda muito perturbado espiritualmente. Toda a sua educação superior não tinha conseguido modificar seus conceitos sobre Deus e os seus temores do castigo eterno. Ia à missa e se confessava fielmente. Orava a Maria e aos outros santos pedindo ajuda, a fim de obter a misericórdia de Jesus. Mas, no âmago de seu coração, ele não tinha certeza de que Deus o havia perdoado.

Certo dia, no mês de julho do ano de 1505, Martinho vendeu todos os seus livros de Direito e convidou seus amigos para uma recepção. Juntos cantaram e conversaram como já o tinham feito muitas vezes antes. No fim da reunião, Martinho disse aos seus amigos: "Esta é última vez que me reúno com vocês. Vou se monge".

Seus amigos ficaram extremamente surpresos. Instaram e discutiram com ele para demovê-lo desta idéia, mas foi tudo inútil. Martinho tinha decidido. Na manhã seguinte, alguns amigos o acompanharam ao mosteiro de Santo Agostinho, em Erfurt. Os portões se abriram e Martinho penetrou por eles. Seus amigos retornaram em lágrimas. Por que aquele rapaz, que tinha pela frente um futuro tão brilhante, haveria de abrir mão de tudo para tornar-se monge? Deus tinha planos para Martinho Lutero.

Fonte: www.ielb.org.br